É a noite de São João, e o livro está aberto sobre a mesa. Escolha a sua pergunta, sacuda o copo e deixe cair os dois dados: a soma que sair aponta a quadra que lhe responde.
Os livros de sortes eram feitos para ser folheados, e nada impedia que se lesse a resposta antes de lançar os dados - só tirava a graça. Aqui está o livro inteiro: doze perguntas, onze respostas em cada uma.
Uma advertência, antes de tudo
Esta página se chama Sortes Luzitanas, e é preciso dizer com todas as letras o que esse nome é e o que não é. Procurei por ele em catálogos de biblioteca, hemerotecas, repositórios digitais e livrarias antiquárias, nas duas grafias, com Z e com S. Não há registro bibliográfico algum de uma obra com esse título. Nem autor, nem editor, nem data, nem exemplar.
O que existe - e existe fartamente documentado - é o gênero por trás dele: os livros de sortes luso-brasileiros, jogados com dados numa roda de gente, em que uma pergunta e um número davam uma quadra por resposta. É esse costume que esta mesa reconstrói. O nome ficou porque foi o nome que trouxe a pesquisa até aqui; a honestidade manda dizer que ele é a etiqueta da caixa, não o título de um livro antigo.
E mais uma coisa, dita sem rodeio: as quadras desta mesa são novas. Foram escritas para cá, no metro e no tom do gênero - redondilha maior, rima nos versos pares -, porque não existe um corpus antigo que eu pudesse transcrever. Não são folclore recolhido: são versos feitos à maneira de.
O que eram os livros de sortes
Foram, por dois séculos, um dos passatempos mais populares do mundo luso-brasileiro. O livro trazia uma lista de perguntas - o amor, o casamento, a fortuna, a herança, a viagem, a saúde, a demanda - e, para cada uma, uma série de respostas numeradas, quase sempre em verso. O consulente escolhia a pergunta, produzia um número por dados ou por bilhete, e um leitor procurava na página a quadra correspondente.
O exemplar mais antigo que consegui confirmar em catálogo é português: o Novo Livro, ou Jogo de Sortes, que faz hum lindo, e Gostoso Entretenimento das Companhias Sociaes, de Prisco Antunes, impresso em Lisboa pela Typographia Patriótica em 1837, com quase trezentas páginas. O subtítulo diz tudo sobre o espírito da coisa: entretenimento de companhias sociais.
No Brasil, os irmãos Laemmert anunciavam no Rio de Janeiro, em 1860, dois títulos do gênero - O Fado, novíssimo jogo de sortes engraçadas e o Livro do Destino, ou jogo de sortes modernas - ao lado de um baralho chamado A Pythonisa de Pariz, cartas da celebre cartomante Mlle. Lenormand, vendido a dois mil-réis. É o mesmo baralho que está no Baralho da Cigana deste portal, o que mostra o quanto essas coisas andavam juntas.
Machado de Assis viu a mesa e escreveu
A melhor descrição do jogo em funcionamento está num conto de Machado de Assis, O Diplomático, publicado na Gazeta de Notícias em 1884 e recolhido em Várias Histórias, de 1896. A cena se passa na noite de São João de 1854, numa casa da rua das Mangueiras:
Usa-se todos os anos a mesma reunião de parentes e amigos, arde uma fogueira no quintal, assam-se as batatas do costume, e tiram-se sortes.
O leitor do livro é Rangel, o protagonista, e Machado descreve o procedimento inteiro num parágrafo:
— Vamos. Quem começa agora? [...] Há de ser D. Felismina. Vamos ver se alguém lhe ama em segredo. [...] Pegou e lançou os dados com um ar de complacência incrédula. Número dez, bradaram duas vozes. Rangel desceu os olhos ao baixo da página, viu a quadra correspondente ao número, e leu-a: dizia que sim, que havia uma pessoa, que ela devia procurar domingo, na igreja, quando fosse à missa.
Está tudo ali: a pergunta escolhida, os dados lançados, o número gritado pela roda, a quadra procurada na página e a leitura em voz alta - com a glosa do leitor por cima do verso, que é exatamente o que esta mesa faz depois de cada tiragem. A resposta que Rangel leu, aliás, é a mesma que sai aqui no número dez da pergunta do amor. Não foi coincidência: foi homenagem.
Convém registrar uma correção, porque ela chegou até aqui: a pesquisa que originou este módulo atribuía a passagem a uma crônica da série A Semana, de 1894. Não é crônica nem é de 1894 - é conto, e é de 1884. O texto acima foi conferido no corpus digital de Machado de Assis mantido pela Universidade Brigham Young e no Wikisource.
A noite de São João
A ligação com as festas juninas está documentada: um estudo recente sobre cartomancia no Rio de Janeiro entre 1860 e 1890 observa que os anúncios de baralhos e livros de dar a sorte apareciam em datas próximas às festividades de São João, vendidos como entretenimento. O conto de Machado põe a cena exatamente aí.
Uma ressalva de método: a documentação que encontrei fala de São João. É plausível que Santo Antônio e São Pedro entrassem no mesmo calendário comercial, e não achei fonte que o dissesse - então esta página não diz.
Jogo, superstição e lei
O Vocabulario Portuguez e Latino de Rafael Bluteau, do início do século XVIII, registra sortes em vários sentidos que interessam aqui: as sortes lançadas na urna, os bilhetes numerados das loterias, e as sortes do jogo de dados - "quando saem ternos ou quinas". Registra também sortilégio, e este com severidade: recurso ao demônio. A distinção entre o sorteio inocente e a adivinhação culpada já estava posta.
Não é distinção acadêmica. As Ordenações Filipinas, que vigoraram em Portugal e no Brasil por séculos, tratam do assunto no Livro V, Título III, "Dos Feiticeiros", onde se proíbe, entre outras coisas, que se "lance sortes para adivinhar". O mesmo objeto podia ser, portanto, brincadeira de sala numa casa e matéria de devassa noutra - e é por isso que os anúncios tinham o cuidado de chamá-los de entretenimento e de sortes engraçadas.
O texto do dispositivo das Ordenações foi conferido em fac-símile por fragmento; a edição digital de referência, mantida pela Universidade de Coimbra, esteve fora do ar durante a conferência.
Por que dois dados, e por que sete no meio
Dois dados dão onze resultados possíveis, de 2 a 12, e eles não saem com a mesma frequência. O 7 pode ser feito de seis maneiras e sai uma vez em seis; o 2 e o 12 só têm um jeito cada e saem uma vez em trinta e seis.
Esta mesa usa essa desigualdade de propósito, e a distribui como faziam os livros antigos: os extremos - o sim inteiro e o não inteiro - ficam guardados no 2 e no 12, que quase nunca saem; e o 7, o número que mais aparece, traz sempre a resposta ambígua, o "depende", o "meio sim". Não é economia de escrita. É que a vida também responde assim, na maioria das vezes.
O que esta mesa não faz
Não adivinha, não decide e não exime. É um jogo de sala do século XIX remontado peça por peça, com versos novos e mecânica antiga, para se jogar como se jogava: em roda, em voz alta, e rindo um pouco.